Mesmo após décadas de alertas científicos, acordos internacionais, promessas corporativas e de governos, a crise climática segue se agravando, abastecida pelo financiamento crescente ao petróleo, gás e carvão. O novo relatório Banking on Climate Chaos mostra que os 65 maiores bancos mundiais destinaram US$ 906 bilhões a empresas de combustíveis fósseis no ano passado, quase 8% a mais do que no ano anterior. A dinheirama equivale a R$ 4,6 trilhões, similares a um terço do PIB brasileiro em 2025.
No mesmo ano, US$ 508 bilhões foram direcionados a empresas que seguem abrindo novas frentes de produção, transporte ou uso de combustíveis fósseis. O valor cresceu 27% em relação ao ano anterior.
O relatório também revela onde essa expansão avançou com mais força. Um dos maiores saltos ocorreu na implantação de estruturas como oleodutos, gasodutos e terminais de exportação de gás natural liquefeito, o GNL. O financiamento a esse segmento cresceu quase 84% em um ano, com US$ 116 bilhões a mais, chegando a US$ 255 bilhões em 2025.
Tais valores ajudam a explicar porque a transição energética segue lenta: além de investir em fontes renováveis, é preciso encolher o uso de combustíveis fósseis. Assim, cada poço de petróleo, mina de carvão ou terminal de gás torna mais difícil cortar as emissões no ritmo preciso.
A análise – realizada por uma coalizão de organizações civis e endossada por centenas de entidades de 55 países – mostra que quase nove em cada dez dólares destinados aos combustíveis fósseis passaram por centros financeiros nos Estados Unidos, Canadá, Japão, China, Reino Unido e União Europeia. Os bancos estadunidenses responderam por cerca de ⅓ do financiamento global ao setor em 2025. O JPMorgan Chase lidera o ranking, seguido pelo Bank of America e pelo Mitsubishi UFJ Financial Group.
Longo prazo
Num prazo maior, o cenário é ainda mais dramático. Desde o Acordo de Paris, em 2015, o financiamento acumulado ao setor fóssil soma US$ 8,7 trilhões, equivalentes a pouco mais de 7% de tudo o que a economia mundial produziu no ano passado – US$ 118,18 trilhões, de acordo com o FMI.
Esses grandes números podem parecer distantes da realidade brasileira, mas seus efeitos já se espalham no país. Secas mais fortes e longas, enchentes violentas, ondas de calor, incêndios e quebras de safras ampliam os riscos e as perdas econômicas, sociais e ambientais.
A Amazônia não é esquecida no relatório. No documento, a região aparece entre os territórios onde populações locais denunciam violações de direitos, perda de biodiversidade e impactos sociais ligados a empresas de combustíveis fósseis financiadas por grandes bancos.
Para ajudar a conter a crise climática, as organizações alinhadas ao relatório defendem que os bancos fecham imediatamente a torneira dos financiamentos à expansão de petróleo, gás e carvão. Também cobram uma retirada paulatina do apoio a empresas sem planos reais de transição energética, com metas absolutas de redução de emissões, prazos curtos e verificação independente.
Para governos e reguladores do sistema financeiro, a recomendação é deixar de depender de compromissos voluntários dos bancos e passar a exigir regras obrigatórias de transparência, de redução dos riscos climáticos e de alinhamento das carteiras financeiras à meta de limitar o aquecimento global a 1,5 °C.
O documento pede, ainda, políticas sérias de direitos humanos, que respeitem o consentimento livre, prévio e informado dos povos indígenas e assegurem a proteção efetiva das comunidades afetadas pela cadeia de combustíveis fósseis.
Por fim, o relatório deixa claro que enfrentar seriamente a crise climática também passa pelo caixa dos bancos. Enquanto eles financiarem a expansão de petróleo, gás e carvão, as metas globais de corte de emissões continuarão valendo menos do que suas carteiras de crédito.
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O post “Bancos mundiais ampliam o financiamento a fósseis e as pressões sobre clima” foi publicado em 25/06/2026 e pode ser visto originalmente na fonte Observatório do Clima
