A Terra Indígena Ianomâmi, entre Roraima e Amazonas, abriga cerca de 34 mil indígenas dos povos Ianomâmi e Ye’kwana. Nos últimos anos, esse território passou a enfrentar uma grave crise humanitária, agravada pelo garimpo, que comprometeu o acesso à saúde e à segurança alimentar.
A presidente dessa subcomissão da Comissão de Direitos Humanos (CDH), senadora Damares Alves (Republicanos-DF), afirmou que o enfrentamento da crise exige atuação articulada dos três Poderes. Segundo ela, embora medidas emergenciais tenham sido adotadas após a decretação da Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (Espin), em janeiro de 2023, é necessário garantir a continuidade dessas ações. Ela lembrou que o objetivo da subcomissão é acompanhar a execução dessas medidas e contribuir para que elas sejam mantidas independentemente de mudanças de governo.
— O Senado não se omitiu de sua responsabilidade. Queremos que tudo o que está acontecendo lá continue — disse a senadora.
Ações emergenciais
Entre as medidas adotadas desde a decretação da Espin, está a instalação de uma Casa de Governo em Roraima, vinculada à Casa Civil da Presidência da República, para coordenar ações de logística, assistência à saúde, segurança alimentar e combate ao garimpo ilegal.
A estratégia integrada reúne diversos órgãos federais, entre eles as Forças Armadas, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e equipes de saúde indígena. Além da manutenção de polos de apoio e Unidades Básicas de Saúde Indígena (UBSIs), cerca de 50 militares do Exército atuam na região em operações de fiscalização para impedir o ingresso de garimpeiros por rios e vias aéreas, incluindo a destruição de pistas de pouso clandestinas e de estruturas utilizadas pela atividade ilegal.
Segundo o diretor da Casa de Governo em Roraima, Nilton Luís Godoy Tubino, as operações reduziram significativamente a presença do garimpo ilegal no território. No entanto, ele alertou que os grupos criminosos têm adaptado suas estratégias e passaram a abrir estradas vicinais para acessar áreas indígenas, o que exige o reforço das ações de monitoramento e fiscalização.
— Com o tempo, com a diminuição da atividade garimpeira nos principais eixos, o que a gente tem enfrentado neste momento é a atividade no interior da selva — explicou Tubino.
De março de 2024 até julho de 2026, segundo os números apresentados, foram realizadas 10.933 ações, gerando um prejuízo ao garimpo estimado em R$ 748,6 milhões. Entre as inutilizações ou apreensões estão:
926 acampamentos;
50 pistas de pouso;
57 aeronaves;
2.300 motores;
591 geradores;
32 quadriciclos;
1,3 tonelada de mercúrio;
265 quilos de ouro; e
258 mil litros de óleo diesel.
Valorização do ouro
A cotação atual do ouro, a cerca de R$ 700 o grama, é um dos motivos para a pressão dos garimpeiros. Em março de 2024, segundo dados do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), a área com garimpos ativos era de 4,4 mil hectares — o equivalente a aproximadamente metade da área do Plano Piloto de Brasília.
Segundo Tubino, a estrutura de financiamento dos garimpos “envolve muita gente, muitas estruturas e muito dinheiro, e com rentabilidade muito grande”. Ele calcula que um piloto de aeronave contratado pelo garimpo para atuar na região ganhe em torno de R$ 150 mil por mês.
Impunidade
No entendimento de Dário Vitório Kopenawa Yanomami, representante do Fórum de Lideranças na Terra Indígena Yanomami e presidente da Hutukara Associação Yanomami, a falta de políticas públicas no governo anterior criou uma “cicatriz” difícil de recuperar. Segundo ele, isso permitiu o avanço do garimpo ilegal, a contaminação das águas, a degradação do meio ambiente, a entrada de armas, de drogas e da prostituição, e o aumento significativo do número de mortes e crimes no território.
— Metade do garimpo a gente expulsou na terra ianomâmi. Mas os garimpeiros continuam nas fronteiras do Brasil com a Venezuela e com Guiana, Guiana Francesa e Colômbia. Isso o governo federal não está vigiando. A gente está fazendo o nosso trabalho e denunciando — afirmou.
Comunidades armadas
Dário Yanomami ainda chamou atenção para o grande número de armas em circulação na região, introduzidas pelo garimpo ilegal. Ele observou que o armamento dos indígenas levou ao aumento de conflito entre as comunidades. E pediu que o Legislativo busque aprovar um projeto de lei que penalize o porte de armas nessas localidades.
A presidente do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Privados de Serviços de Saúde do Estado de Roraima (Siemesp-RR), Joana Gouveia Mendes, alertou sobre a insegurança, que gera instabilidade para equipes de profissionais atuarem.
— Hoje muitos dos nossos profissionais entram nos territórios com medo. Em novembro de 2024 nós tivemos o assassinato de um técnico de enfermagem em pleno exercício do seu trabalho — relatou.
Redução da mortalidade
Graças ao acompanhamento nutricional e à maior oferta de exames de malária e vacinas, houve uma redução de 18,2% da mortalidade na área entre 2023 e 2025, segundo dados do Ministério da Saúde. As maiores reduções foram das mortes por coqueluche (100%), malária (80,8%) e desnutrição (53,2%), além da mortalidade infantil (29,83%).
Atualmente a equipe de saúde conta com 2.107 profissionais, sendo 63 médicos. A secretária de Saúde Indígena, Lucinha Tremembé, ressalvou que a área não recebeu créditos extraordinários, tendo utilizado o orçamento ordinário do ministério para atingir esses resultados.
— A gente não tem medido esforços. Isso não foi um dificultador para a aumentar a nossa força de trabalho, para a gente aumentar a infraestrutura dentro do território — afirmou.
Também foram apresentados números que indicam melhora no saneamento e no abastecimento de água. De acordo com a diretora do Departamento de Promoção da Inclusão Produtiva Rural e Acesso à Água do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), Camile Marques Sahb, estão sendo implementados 30 microsistemas comunitários de acesso à água, que irão beneficiar cerca de 3 mil ianomâmis.
O MDS, explicou Sahb, está trabalhando juntamente com a Embrapa no apoio técnico e logístico, em dois centros na região, para auxiliar os indígenas na produção agrícola local — solicitação, segundo o ministério, feita pelos próprios ianomâmis.
— Foi colocado muito fortemente que eles gostariam de desenvolver a capacidade produtiva, porque não gostariam de ficar recebendo cestas de alimentos para sempre — acrescentou Sahb.
Cestas de alimentos
Entre março de 2024 e março de 2025, o Ministério dos Povos Indígenas viabilizou a logística para a entrega de quase 57 mil cestas de alimentos, distribuídas em 404 pontos. Mas de acordo com o secretário-executivo do ministério, Marcos Kaingang, o propósito da pasta é garantir soberania alimentar como uma política de estado permanente para “ir além da entrega da cesta”.
— É uma demanda das comunidades indígenas e das lideranças. Nossa proposta aqui é garantir que os territórios possam retornar aos seus modos de vida, com a abertura da roça, da pesca, da caça — concluiu.
O presidente da Associação Ypassali Sanuma, Mateus Sanuma, disse que sua comunidade, no estado de Roraima, ainda enfrenta dificuldades de acesso à alimentação, e que o cenário vem se agravando. Ele ainda denunciou um aumento no número de suicídios em sua região.
— No Amazonas os ianomâmis têm comida, têm a caça, mas na nossa região não temos isso — comparou.
Fonte: Agência Senado
O post “Audiência defende políticas permanentes para proteção do território ianomâmi” foi publicado em 13/07/2026 e pode ser visto original e
