O caso da Mineração Rio do Norte (MRN) na Amazônia é um bom exemplo sobre como as multinacionais da mineração atuam no Brasil ignorando todas as comunidades afetadas por suas operações e mesmo assim conseguem as licenças para implantar e expandir os seus projetos.
A MRN é a maior produtora de bauxita do Brasil, elemento usado como matéria-prima para a fabricação de alumínio. O Brasil, por sua vez, é o quarto maior produtor mundial de bauxita. A mina da MRN, que começou a funcionar em 1979, se localiza em Oriximiná, no oeste do Pará, dentro da Floresta Nacional Saracá-Taquera. Em 2019, a MRN produziu 12 milhões de toneladas de bauxita e teve um lucro líquido de R$ 143 milhões.
A composição acionária da MRN é relevante: a mineradora é uma subsidiária da Vale , que detém 40% das ações da empresa. O restante é dividido por outros grandes players mundiais , como a South 32 Minerals (empresa australiana que resultou de ativos da BHP Billiton), o grupo Alcoa, a Companhia Brasileira de Alumínio (da Votorantim), a norueguesa Norsk Hydro e a Alcan Alumina.
A estrutura da MRN em Oriximiná inclui parque industrial para secagem do minério, impressionantes 21 barragens para armazenamento de rejeitos , ferrovia, porto e duas usinas termoelétricas. Além de uma vila fechada (a cidade-empresa Porto Trombetas) onde vivem cerca de 6.000 pessoas (funcionários e seus familiares) que conta com hospital, escola e aeroporto próprios.
Mas as comunidades afetadas por essa gigantesca operação não têm a mesma sorte. Em Oriximiná, um município maior que Portugal, vivem cerca de 10 mil quilombolas e 3.500 indígenas.
Muitas dessas comunidades quilombolas e ribeirinhas são diretamente afetadas pelas operações da MRN . Cálculos da Comissão Pró-Índio apontam que a área de concessão da MRN sobreposta às Terras Quilombolas Alto Trombetas 1 e Alto Trombetas 2 soma quase 40 mil hectares. A floresta e os rios é que garantem a subsistência das famílias, que vivem sobretudo do extrativismo. E a área de exploração da MRN não para de crescer.
Ampliação repete práticas do passado e ignora comunidades afetadas
Repetindo o caso do Platô Monte Branco, área que obteve do Ibama em 2013 a licença de operação e que incide sobre a terra quilombola Alto Trombetas 2, em dezembro de 2018 a MRN conseguiu nova autorização do Ibama para operar a área do Platô Aramã .
O desmatamento da área, previsto em 362 hectares, avançou durante 2020. O Estudo de Impacto Ambiental (EIA), feito pela Brandt Meio Ambiente, nega a existência de comunidades afetadas, o seu direito ao território e os impactos diretos e indiretos causados pela mineradora. Nos dois casos, não foi respeitado o direito de consulta livre, prévia e informada às comunidades, conforme estabelece a lei brasileira.
Os moradores descobriram que a área estava sendo aberta pelo barulho das máquinas.
“Foi uma surpresa porque a gente coordena uma associação de 29 comunidades e nem a Associação foi comunicada. Quando descobrimos já estavam trabalhando dentro da área com licença de operação. Não fomos consultados, não tivemos participação e não recebemos o convite como deveríamos receber”, conta Evanilson Marinho, coordenador da associação que representa diversas comunidades impactadas.
Procurada pela reportagem para comentar o caso das licenças conseguidas, os conflitos com as comunidades e a segurança das suas barragens, a MRN Mineração respondeu que não iria se posicionar.
O Ibama não se manifestou sobre o fato de ter concedido as licenças mesmo com as comunidades excluídas do processo. A Brandt Meio Ambiente não comentou o motivo de ter ignorado a própria existência das comunidades no seu Estudo de Impacto Ambiental.
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Milhares de famílias vivem com medo
Mais de 1200 famílias vivem em torno da área da mineradora. Algumas comunidades estão bem próximas das barragens de rejeitos. O medo é constante.
“Todo mundo vive assustado. Colocaram uns alarmes e sirenes. As pessoas vivem muito próximas dos tanques. Elas dormem com um olho aberto e o outro fechado. Dizem que há segurança, mas as pessoas se preocupam”, diz Marinho, que acompanha a situação há 18 anos.
Só no caso do Platô Aramã são 4 comunidades onde vivem 154 famílias próximas do projeto e dos rejeitos. A poluição sonora, do ar e da água é uma realidade para as pessoas que vivem ali.
“Já aconteceram vazamentos. A gente vê que em tempos de chuva a água fica feia, escorre para a margem do igarapé, isso em várias comunidades. As pessoas que estavam acostumadas a tomar água dos igarapés já não tomam mais. E o barulho das máquinas é intenso”, conta Marinho.
As lideranças reivindicam a imediata paralisação das atividades no platô Aramã até que a empresa realize um estudo de impacto específico para as comunidades e que seja acordado um plano de mitigação e indenização, já que o direito à consulta prévia foi desrespeitado. A liderança conta que a MRN promete começar a partir de janeiro.
O histórico, no entanto, diz que as famílias têm poucos motivos para acreditar que algo vá mudar.
O post Mineração Rio do Norte amplia exploração de bauxita no Pará sem ouvir as comunidades afetadas apareceu primeiro em Observatório da Mineração .
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O post “Mineração Rio do Norte amplia exploração de bauxita no Pará sem ouvir as comunidades afetadas” foi publicado em 17th December 2020 e pode ser visto originalmente diretamente na fonte Observatório da Mineração