DO OC – Conter as mudanças climáticas por meio do plantio de centenas de bilhões de árvores pelo mundo não esbarra apenas em limitações econômicas e geopolíticas. Estudo publicado na quinta-feira (28) na revista Science indica que a disponibilidade de áreas para florestamento e reflorestamento é muito menor do que o previsto.
Liderado por pesquisadores da universidade Sun Yat-sen (Taiwan), o trabalho afirma que cerca de 398 milhões de hectares estariam aptos globalmente a abrigar tais iniciativas, dos quais 20% deles concentrados em áreas desmatadas do Brasil.
O número equivale a pouco mais de um terço da estimativa feita em 2019 pelo Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça, segundo a qual o planeta poderia abrigar 900 milhões de hectares de novas florestas e, por meio delas, capturar 25% do carbono então presente na atmosfera. À ocasião, ficou famoso o cálculo de que o espaço seria suficiente para 1 trilhão de novas árvores.
O plantio maciço de florestas é uma das técnicas para atingir as chamadas “emissões negativas”, ou seja, para o mundo eventualmente sequestrar mais CO2 da atmosfera do que emite. Todos os modelos computacionais que simulam a possibilidade de limitar o aquecimento global a 1,5oC, como preconiza o Acordo de Paris, levam em conta muitas emissões negativas. A indústria fóssil defende o plantio maciço de florestas como uma alternativa ao abandono imediato do petróleo.
O novo estudo começou com a produção de mapas com as taxas globais de sequestro de carbono dos ecossistemas (solo e biomassa) no caso de um potencial reflorestamento. O resultado bruto foi então analisado a partir do cruzamento com uma série de fatores limitantes.
Áreas com reduzida disponibilidade hídrica para sustentar uma floresta, por exemplo, foram excluídas. Savanas e outros campos naturais, onde iniciativas do gênero colocariam em risco a biodiversidade local, também foram excluídas da conta.
O resultado dessa primeira triagem, segundo o estudo, seria capaz de retirar cerca de 40 bilhões de toneladas de carbono até 2050 se integralmente colocado em prática. Mas havia outro grande fator limitante a ser considerado: a política.
Dos 398 milhões de hectares disponíveis globalmente, apenas cerca de 30% (120 milhões de hectares) são passíveis de reflorestamento de acordo com os compromissos atuais dos governos mundo afora.
Se mantido este cenário, segundo os pesquisadores, o potencial de sequestro de carbono com o plantio de árvores despencaria para cerca de 12 bilhões de toneladas em 25 anos.
“Os 15 principais países, que representam 70% do potencial global de área, comprometeram apenas 31% do seu potencial estimado”, aponta o estudo, em um trecho.
A maior parcela de áreas sob compromissos de reflorestamento no planeta está no continente africano (50%). Ocorre que, de acordo com os pesquisadores, a maior parte dessas áreas é de savanas.
“A África, com apenas 4% do potencial global de área (16 Mha), assumiu 50% dos compromissos de florestamento (115,5 Mha). Esse potencial limitado de área deve-se principalmente a preocupações com a biodiversidade.”
O Brasil é citado com destaque no estudo pelo grande potencial para o reflorestamento. São ao todo 78 milhões de hectares disponíveis (um quinto da área global), principalmente em regiões recentemente desmatadas da Amazônia.
A ampliação da fronteira agrícola, porém, poderia anular os esforços nessa direção. “Países como Indonésia e Brasil têm potencial para reflorestamento, mas ainda estão perdendo grandes áreas de terras florestais para a agricultura e a produção de commodities”, apontou o estudo.
Entre as conclusões, o estudo destaca que a proteção e o manejo das atuais florestas é tão ou mais importante do que criar novas. E que, muito embora possam efetivamente contribuir para os esforços globais de mitigação, essas iniciativas não substituem a necessidade de uma transição para longe dos combustíveis fósseis.
Implementação difícil
Vice-presidente do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU) de 2015 a 2023, a pesquisadora Thelma Krug, do Inpe, analisou a pedido do OC os dados trazidos pela pesquisa e se disse “totalmente alinhada” às suas conclusões.
Segundo ela, o fim do desmatamento e a proteção e gestão das florestas existentes são muito mais importantes que a criação de novas florestas.
“Novas florestas demoram a crescer e sua contribuição para a mitigação é mais lenta. E a implementação de florestamentos e reflorestamentos bem-sucedidos é desafiadora, apresentando alto custo e difícil execução”, afirmou.
Entre as barreiras à implantação de novas florestas, a pesquisadora citou a alta vulnerabilidade a eventos climáticos extremos, como incêndios florestais, secas ou fortes chuvas.
“Essa vulnerabilidade é agravada pela ausência de ações concretas de redução de emissões fósseis, o que leva a um aumento esperado na intensidade e frequência de secas que, por sua vez, intensificam os incêndios florestais. Ou seja, em termos de contribuições para a mitigação, a descarbonização rápida na indústria e em outros setores é a verdadeira prioridade.”
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O post “Falta espaço no mundo para expandir florestas, diz estudo” foi publicado em 29/08/2025 e pode ser visto originalmente na fonte Observatório do Clima