DO OC – O fim dos combustíveis fósseis – por bem ou por mal – é inevitável. A maneira como isso acontecerá, no entanto, ainda não está dada: se furando tudo até a última gota, em um planeta vivendo as consequências mais severas do colapso climático, ou de forma planejada, garantindo a segurança energética, direitos de trabalhadores e comunidades afetadas. Enquanto governos patinam e a indústria fóssil sabota a transição energética, a ciência amplia evidências sobre os riscos de um declínio desordenado das fontes fósseis. Na semana passada, um novo estudo publicado na Science alertou para a vulnerabilidade dos sistemas existentes, projetados para operar em larga escala e interligados em uma “rede de redes”.
Segundo Emily Grubert, professora associada de política de energia sustentável na Universidade de Notre Dame e autora principal do artigo, a ideia de que o crescimento das energias renováveis levaria, por si só, a uma transição suave e sem percalços para longe dos fósseis é um erro que pode custar muito caro. Em entrevista ao Observatório do Clima, ela explicou como refinarias e outras grandes estruturas da indústria fóssil podem colapsar caso seu encerramento não seja gradualmente planejado desde já e defendeu a necessidade de investimentos e cronogramas específicos para a transição.
Leia a entrevista abaixo.
O estudo alerta que a falta de planejamento para o fim dos combustíveis fósseis pode levar a um colapso dos sistemas existentes e atrasar a transição para as fontes renováveis, o que contraria a ideia de que a queda da demanda por fósseis conduziria quase “naturalmente” à transição. Como o conceito de “escala mínima viável” ajuda a entender esse colapso?
Muitas pessoas presumem que a transição será suave, com a oferta caindo para atender a uma demanda em queda. Uma das coisas que estamos mostrando com este trabalho é que os serviços de energia fóssil são grandes máquinas que só têm capacidade de prestar serviços quando conseguem operar na escala para a qual foram projetadas. Existe essa sensação de que, em princípio, a oferta deveria mudar para atender à demanda. O que estamos sugerindo é que você pode, na verdade, ter grandes mudanças porque uma refinaria específica vai fechar ou uma usina específica vai fechar. E, assim, uma pequena queda na demanda pode, na verdade, resultar em perdas bastante significativas de oferta, ou vice-versa. Isso é muito presente nos Estados Unidos porque temos uma infraestrutura antiga. Temos essa mesma situação em alguns outros países. Além disso, observamos que muitas vezes é difícil derrubar a demanda porque a oferta fica mais barata, já que essas grandes instalações precisam continuar operando. Então há uma espécie de jogo de empurra aí também.
Ao descrever vulnerabilidades em diferentes setores, o estudo aponta “precipícios” físicos, financeiros e gerenciais que poderiam desencadear crises energéticas, choques de preços e ameaças à segurança muito antes de os combustíveis fósseis serem afastados. Como isso se aplicaria às refinarias de petróleo, por exemplo?
Eu e meu coautor no estudo, o Dr. Joshua Lappen, estamos trabalhando bastante com o exemplo da Califórnia, porque há muita transição no refino acontecendo lá agora. É um dos exemplos mais interessantes. As refinarias produzem múltiplos produtos: diesel, querosene de aviação, gasolina, asfalto, enxofre e vários outros, que dependem não apenas de qual é a demanda por produtos, mas também do tipo de petróleo que você coloca nelas. Diferentes petróleos crus levam a diferentes misturas de produtos, assim como a demanda leva a diferentes misturas de produtos. O que identificamos é que, sim, as refinarias criam mercados para alguns de seus coprodutos, mas elas são projetadas com alta complexidade para garantir que consigam pegar o petróleo cru que estão recebendo e produzir os produtos de que precisam. Quando há uma mudança no equilíbrio desses produtos, a refinaria deixa de estar otimizada para produzir suas saídas. Se, de repente, você precisa de muito querosene de aviação, mas não de toda a gasolina, isso vira um problema que afeta todo o sistema.
Isso impediria uma refinaria de simplesmente reduzir a escala de produção ou redefinir produtos prioritários?
As refinarias americanas, por exemplo, têm cerca de 100 anos, ainda que tenham sido modernizadas. O que vemos são sistemas projetados com muita complexidade, refeitos ao longo de muitos anos. Então nem sempre é possível desativar apenas uma parte de uma refinaria e manter o resto. Há setores da indústria indicando que, do ponto de vista operacional, não há notícia de que as refinarias são capazes de operar abaixo de cerca de 65% a 70% de suas capacidades. Isso vem da própria indústria. Isso indica que não há condições de operação para uma refinaria com, digamos, 10% de sua capacidade para produzir qualquer mistura de produtos que desejar, ou qualquer petróleo cru.
Governos e tomadores de decisão frequentemente argumentam que o lucro da exploração e expansão dos combustíveis fósseis é necessário para financiar a transição energética e a estrutura de energia verde. Quais são os riscos de políticas que ignoram a gestão do declínio dos fósseis?
Uma das coisas com as quais mais me preocupo é que, à medida que essas indústrias se tornam menos lucrativas, há menos investimento. Há menos manutenção em geral e menos atenção a questões de segurança, potencialmente. Uma coisa é ter uma situação em que há muito dinheiro circulando, com lucro para reinvestir, e com uma perspectiva de que a instalação continue operando por muito tempo. Outra coisa é ter uma perspectiva de que ela possa fechar em dez anos – e estamos falando de investimentos na escala de centenas de milhões a bilhões de dólares. Estamos questionado isso: onde está o dinheiro para garantir que essas instalações estejam operando com segurança e, mesmo depois de fechadas, onde está o dinheiro para garantir que sejam descontaminadas quando as instalações estiverem realmente saindo de operação? Acho que é aí que vemos muitos riscos potenciais que realmente não foram tão bem compreendidos. De fato fala-se em usar os lucros [dos fósseis] para fazer outra coisa [energia limpa]. Mas cabe perguntar se esses lucros não são necessários para encerrar a infraestrutura.
O principal debate na COP30 foi a necessidade de os países adotarem um mapa do caminho para implementar a transição para longe dos combustíveis fósseis. O que um roteiro deveria levar em consideração em termos dessa gestão do declínio dos combustíveis fósseis?
Na minha perspectiva, a principal coisa que um roteiro precisa considerar é quais serviços [que utilizam fósseis] estão sendo prestados às pessoas. Quando pensamos em como manter as pessoas seguras, é crucial saber quais serviços estão disponíveis e quais são as suas fontes, porque isso aponta quais estruturas correm risco de fechar inesperadamente. A gestão do declínio nos ajuda a descobrir o que precisamos priorizar e também mostra qual ordem devemos seguir.
Como esse cronograma adequa diferentes contextos?
A gestão passa por entender em que ordem queremos que os sistemas de fontes fósseis sejam encerrados e qual o cronograma para isso. Com essas duas coisas, é possível ter definições sobre serviços específicos que estão sendo prestados. Em países grandes como o Brasil e os Estados Unidos, você pode precisar de coisas diferentes em diferentes partes do país para garantir que o abastecimento continue fluindo. É preciso atenção para, por exemplo, não fechar tudo em uma região e deixar tudo aberto em outra região baseado apenas em motivos como o lucro. Quero ressaltar que os os exemplos que usamos em nosso artigo estão muito orientados para o contexto dos Estados Unidos. Estamos em um país muito rico, com uma infraestrutura muito antiga – o que, em teoria, deveria trazer uma facilidade para eliminar os fósseis. Mas vemos que esses desafios precisam ser planejados. E são desafios que vemos em todo lugar, apesar das diferenças específicas.
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O post “Falta de planejamento para fim dos fósseis pode colapsar sistemas energéticos” foi publicado em 06/02/2026 e pode ser visto originalmente na fonte Observatório do Clima
