Quem vê cara não vê emissão. A China tem posado de bonita por ser o país do mundo que mais investe em energia limpa – e merece aplausos por isso. Mas a aceleração constante da economia chinesa não possibilitou, até agora, que o maior emissor do mundo reduzisse o seu uso de combustíveis fósseis. E o rascunho do 15º Plano Quinquenal, documento que prevê todo tipo de meta, da economia ao clima, para os próximos cinco anos, não parece promissor.
O rascunho do Plano Quinquenal para 2026 a 2030 foi tornado público na semana passada, quando iniciou-se, em Pequim, a edição anual da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, que vai até a próxima quinta-feira. O documento trouxe um retrocesso no compromisso do Plano Quinquenal anterior – ou seja, para os anos de 2021 a 2025 – que havia prometido reduzir gradualmente o consumo de carvão. Além disso, fez uma espécie de pedalada climática, estabelecendo uma meta de intensidade de carbono menos rigorosa.
Os chineses são famosos por seu excesso de cautela na política climática. Costumam prometer menos do que são capazes de entregar, e nos últimos dois anos há uma forte suspeita de que suas emissões tenham chegado ao pico graças à expansão maciça de energias renováveis (o fato de o elétrico chinês BYD Dolphin Mini ter sido o carro de passeio mais vendido no Brasil no varejo em fevereiro é prova dessa expansão). Mas o recuo do gigante, num momento em que a política climática despenca nas prioridades de governos do mundo inteiro, é um sinal preocupante para a implementação do Acordo de Paris.
O carvão ainda responde por cerca de 60% da oferta de energia na China, segundo dados de 2023 da Agência Internacional de Energia, a IEA. Ou seja: a China só derruba substancialmente sua emissão de gases de efeito estufa se diminuir substancialmente a queima de carvão. O plano quinquenal anterior previa “um controle razoável da escala e do ritmo do desenvolvimento da energia a carvão”. Tal formulação está ausente do atual, que fala em “fortalecer a utilização limpa e eficiente da energia fóssil”. Ou seja: em vez de limitar o crescimento da indústria química, usuária pesada de carvão mineral (num processo chamado “coal-to-chemicals”, uma espécie de petroquímica com carvão em vez de petróleo), a China parece estar mais voltada a reduzir a pegada de carbono dela por meio da integração com outras formas de energia, como hidrogênio verde e biomassa.
O plano até fala em substituir o consumo de 30 milhões de toneladas de carvão, por ano, por alternativas mais limpas. É muito pouco: a China utilizou 3,17 bilhões de toneladas de carvão em 2025.
A pedalada
Agora, como diria o famoso climatólogo , é que a coisa fica mais profunda. A China costuma projetar suas emissões a partir do cálculo de intensidade de carbono, que mede a quantidade de gás carbônico equivalente emitida por unidade do PIB. Cinco anos atrás, o presidente Xi Jinping anunciou a meta de reduzir a intensidade de carbono do país em 65% até 2030. Em outras palavras: cada ponto do PIB geraria uma emissão 65% menor do que aquela gerada em 2005, ano que ele tomou como base.
Mas o plano atual fala que a China alcançou uma redução de 17,7% por unidade do PIB nos últimos cinco anos – e mesmo esses dados, já baixos, parecem estar em desacordo com a realidade, segundo as pesquisadoras Lauri Myllyvirta e Belinda Schäpe , do Centro de Investigação sobre Energia e Ar Limpo (Crea, na sigla em inglês). Para chegar aos 17,7%, a China teria dado uma pedalada climática, incluindo, no cálculo, as emissões industriais (que antes não constavam). Dessa forma, o país teria sido capaz de quantificar a queda de emissões que resultaram da produção menor de cimento, devido ao desaquecimento do setor imobiliário. Sem incluir os cálculos da indústria, a redução real seria de apenas 12,4%, segundo as pesquisadoras.
Se assim for – ou seja, se a China tiver reduzido apenas 12,4% de sua intensidade de carbono – as emissões totais do país podem ter aumentado em 13%, tendo em vista que o PIB do país cresceu a uma média de 5,4% nos últimos cinco anos. É um dado preocupante. Já para os próximos cinco anos (2026-2030), o país anunciou a meta de reduzir a intensidade de carbono em 17%. Continua sendo pouco, e é um recuo em relação aos 18% do Plano Quinquenal anterior. Segundo o Crea, para ser consistente com o compromisso de 65% de redução de 2005 a 2030, o corte teria de ser de pelo menos 23%, sem pedalada.
Em entrevista ao OC, Belinda Schäpe explicou a situação em mais detalhes: “O escopo da meta de intensidade de CO2 não havia sido definido anteriormente, mas entendia-se que abrangia apenas as emissões relacionadas à energia, com base nos dados anuais. Parece que isso mudou a partir deste ano para incluir também os processos de produção industrial. Não que as emissões industriais fossem ignoradas antes, mas certamente havia um foco maior no consumo de energia primária, incluindo o uso de energia na indústria.”
A mudança no cálculo foi dada como uma nota de rodapé do comunicado estatístico, sem mais detalhes do governo sobre o assunto. O relatório final está programado para sair hoje, após aprovação formal na sessão de encerramento da Assembleia Popular Nacional (NPC).
Energia limpa
No que diz respeito à energia limpa, o 15º Plano Quinquenal reafirma a meta de elevar a participação de fontes não fósseis para 25% do consumo total de energia até 2030, acima dos 21,7% registrados em 2025. E confirma que a expansão de energia limpa continuará sendo um pilar da estratégia energética chinesa.
Além disso, a China pretende estabelecer cem parques industriais de “carbono zero”, combinando eletrificação, energia renovável, reciclagem de materiais e gestão digital de energia. Os primeiros 52 parques já tinham sido antecipados em dezembro de 2025. Como o plano é um documento estratégico, muitos detalhes serão definidos em planos setoriais específicos para eletricidade, renováveis, carvão e mercado de carbono.
Ao que tudo indica, a China continuará sendo o maior investidor mundial em energia limpa e o maior consumidor global de combustíveis fósseis — uma contradição que reflete tanto a escala de sua economia quanto o ambiente geopolítico cada vez mais instável.
“Este é o maior desafio”, conclui Belinda Schäpe, do Centro de Investigação sobre Energia e Ar Limpo. “Nos últimos anos, a energia limpa e o carvão cresceram rapidamente lado a lado. O plano não traz metas específicas para energia limpa, além das muito modestas para 2035. Isso pode representar um risco de desaceleração na expansão da energia limpa e, consequentemente, de seus benefícios econômicos.”
O post China faz pedalada climática em plano quinquenal apareceu primeiro em Observatório do Clima .
O post “China faz pedalada climática em plano quinquenal” foi publicado em 11/03/2026 e pode ser visto originalmente na fonte Observatório do Clima
