ANÁLISE
Existe um ditado que diz que é quase impossível convencer alguém a mudar algo quando é desse algo que depende a sua própria existência. O saldo final da COP 30 até aqui indica um fracasso em temas cruciais, como o compromisso claro em diminuir o uso e a dependência de combustíveis fósseis e indicar o “mapa do caminho” para que isso aconteça.
O bloqueio para que um entendimento mínimo sobre isso fosse alcançado veio dos suspeitos de sempre e de um em especial : o petroestado ditador da Arábia Saudita, surgido, sustentado e mantido em função do petróleo.
O poder geopolítico da Arábia Saudita, porém, vem do petróleo e cada vez mais da mineração: em agosto de 2023 destacamos como a Manara Minerals, empresa controlada pela ditadura árabe, virou acionista e sócia da Vale Metais Básicos , a divisão de “minerais críticos” da Vale.
Não é um movimento isolado. Em janeiro deste ano contamos que a Ma’aden, outra empresa estatal saudita, firmou acordo com o governo Lula e prometeu investir R$ 8 bilhões em mapeamento geológico, pesquisa e aproveitamento mineral no Brasil.
O anúncio foi feito diretamente da própria Arábia Saudita, durante o Future Minerals Forum , anunciada como “a principal plataforma mundial para moldar o futuro dos minerais”, conectando “investidores, formuladores de políticas e líderes do setor ”.
Enquanto mantém a sua ditadura fincada no abundante e fácil dinheiro do petróleo e tenta usar estrelas do futebol para lavar a sua imagem, a Arábia Saudita, sem perder tempo, faz uma transição energética estratégica: injeta dinheiro, lobby e articulação para virar um ator inescapável também do setor mineral.
Da “Era do Petróleo” para “a Era dos Minerais Críticos”, como tem sido vendido pelo próprio setor, não dará para fugir da Arábia Saudita. O resultado tímido e covarde do texto final, planos, proposições e metas da COP 30 em Belém são o primeiro recado direto e estrondoso dado pelos árabes nesse sentido. A prometida “COP da implementação” virou a “COP do vamos ver isso aí”, deixando para o incerto futuro questões que deveriam e poderiam ter sido resolvidas agora.
É chato dizer isso, mas não foi por falta de aviso e de jornalismo e análise de primeiríssima linha, modéstia às favas, como é feito aqui neste Observatório. Em outra matéria de janeiro deste ano dizemos exatamente que estas movimentações adicionavam “camadas extras de complexidade ao já complexo jogo geopolítico da transição e mexem com o que será debatido, analisado, prometido, encampado e encaminhado na próxima COP 30. E com o que não será também. Afinal, os petroestados dominaram as últimas COP’s e os lobistas do petróleo fizeram a festa. Há enorme risco de que o cenário se repita em Belém”.
Para confirmar a previsão que fizemos lá em janeiro, se juntaram aos sauditas os mencionados suspeitos de sempre: a China, a Índia e a Rússia, além dos Estados Unidos, sob o comando do fascismo ultraliberal de Donald Trump e cia, que novamente saiu do Acordo de Paris e nem sequer foi à COP em Belém.
Entre outros, este grupo de países figura na lista de maiores emissores do planeta e são altamente dependentes do petróleo, do carvão e do gás, a família de combustíveis fósseis que garantem o (nem tão) lento funeral da humanidade.
Dinheiro não falta, mas ninguém quer pagar a conta. A decisão final da COP 30 “não trata a crise como crise; não traz nem mapa e nem caminho para a transição para longe dos combustíveis fósseis e para o fim do desmatamento até 2030, e não garante que os recursos necessários para adaptação”, resumiu Carolina Pasquali, diretora executiva do Greenpeace Brasil.
Um grupo de respeitadíssimos cientistas, incluindo Carlos Nobre, Thelma Krug, Johan Rockström e outros, lembrou que “uma transição energética alinhada à ciência exige liderança, coragem e coerência. Devido ao fracasso, até agora, em implementar o Acordo de Paris, o ritmo necessário de mudança é extremamente elevado”.
Mesmo com dezenas de países apoiando um caminho para sair do colapso total e para acabar com o desmatamento, o lobby fóssil e da mineração, presença massiva em Belém, com direito a credenciais concedidas pelo próprio governo brasileiro no caso do IBRAM (Instituto Brasileiro de Mineração), que representa as maiores empresas do setor, sai vitorioso.
Alguma esperança vem da Colômbia. O vizinho prometeu novo evento em abril do próximo ano para pressionar pelo abandono dos combustíveis fósseis e liderou uma coalizão de países “rebeldes” que, com críticas incisivas, deixaram a equipe responsável pelas negociações da COP 30 e a diplomacia em geral, expostas e em situação difícil.
É a mesma Colômbia que pode já na primeira semana de dezembro, na Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEA7), apresentar uma proposta de resolução para um acordo internacional sobre transparência e responsabilização em toda a cadeia de valor da mineração .
O Observatório da Mineração, junto a uma coalizão de ONG’s, participa ativamente dessa proposta e tem feito reuniões com tomadores de decisão da Colômbia sobre o assunto que, claro, enfrenta fortíssima oposição de quem tenta esvaziar totalmente a ousada proposta rascunhada até aqui.
Nos 10 anos do Acordo de Paris, completados nesta COP em Belém, o mundo assiste a uma aceleração exponencial da crise climática, a recordes sucessivos de anos mais quentes já registrados, aumentos também sucessivos das emissões de CO2, eventos extremos cada vez mais frequentes, financiamento trilionário para combustíveis fósseis, meta de limitar o aquecimento a 1,5º ultrapassada. Articulações geopolíticas e empresariais que vão na contramão de tudo que deveria ser feito para evitar o colapso definitivo da vida humana na Terra em poucas décadas.
Os resultados da COP 30 e o eterno jogo de cena que essas conferências representam, comprova novamente que, para os petroestados e para a mineração, de mãos dadas, isso é mero detalhe diante da oportunidade de seguir batendo outro recorde, o de lucro, por muitos e muitos anos enquanto a parte mais vulnerável da população mundial sente os efeitos devastadores do que os responsáveis pela crise climática ajudaram a causar e seguem atuando para piorar.
O post Petroestado ditador da Arábia Saudita, sócio da Vale em minerais críticos e parceiro do governo Lula, é crucial para o fracasso da COP 30 apareceu primeiro em Observatório da Mineração .
Fonte
O post “Petroestado ditador da Arábia Saudita, sócio da Vale em minerais críticos e parceiro do governo Lula, é crucial para o fracasso da COP 30” foi publicado em 22/11/2025 e pode ser visto originalmente diretamente na fonte Observatório da Mineração
