A taxação imposta pelo governo de Donald Trump de 25% sobre o alumínio e o aço, além do cancelamento de isenções e cotas livres de impostos para grandes fornecedores como o Brasil não deveriam ser as únicas preocupações da indústria minero-siderúrgica brasileira.
É o que mostra o relatório “Aço maculado: as consequências mortais da cadeia de fornecimento de aço sujo da Hyundai” produzido pela Mighty Earth . O documento afirma que os compromissos públicos da montadora sul-coreana com a sustentabilidade são, na verdade, uma “miragem”.
Uma coalizão de organizações realizou aprofundada investigação entre 2018 e 2024 para afirmar que a cadeia de fornecimento de aço da Hyundai e seus fornecedores, o que inclui empresas como a Vale e a Ternium, estão “diretamente ligados à destruição ambiental devastadora, à exploração de trabalhadores e a violações dos direitos da comunidade”.
Neste período foram analisados e identificados uma série de projetos e instalações em nove países, incluindo Brasil, Colômbia, Coreia do Sul, EUA, México, Vietnã, Austrália, Canadá e Rússia, que produzem materiais e componentes dentro da cadeia de suprimentos de aço da empresa asiática.
O documento aponta, além dos danos conhecidos causados pela Vale nos últimos anos, caso do rompimento de Brumadinho, os impactos nocivos da siderúrgica Ternium, instalada no bairro de Santa Cruz, no Rio de Janeiro . A empresa, uma das principais fornecedoras de aço da multinacional sul-coreana, também recebe minério de ferro e carvão de fornecedores como a Vale no Brasil.
Segundo dados de 2024 da Fair Steel Coalition a produção de aço da Ternium emite mais de 10 milhões de toneladas de CO2 por ano, representando uma parcela considerável do total de emissões de gases de efeito estufa do Rio, entre uma série de outros danos ambientais e sociais, como o consumo de água que daria para abastecer entre 10 e 14 milhões de pessoas.
O aço da cadeia citada é usado para fabricar modelos de veículos Hyundai e também da Kia, como Tucson, Santa Fe, Santa Cruz, Genesis, EV9 e Sorento. “Esses veículos são então exportados e vendidos em um grande número de mercados, incluindo Estados Unidos, Canadá, Noruega, Turquia, México, Austrália, Filipinas e União Europeia”, explica o relatório.
No caso da Vale, a empresa é classificada como um dos fornecedores “mais proeminentes” da Hyundai, citando as minas de minério de ferro em Minas Gerais e na região de Carajás, no Pará, onde a poluição ambiental, segundo o documento, “é desenfreada”.
No contexto de Brumadinho, o documento narra que em 2020, a Organização das Nações Unidas (ONU) publicou um relatório que afirmava que a Vale tinha conhecimento do risco para a barragem de Brumadinho desde 2003 , mas a empresa desconsiderou recomendações feitas por consultores externos.
“Em decorrência do desastre de Brumadinho, a comunidade indígena Aldeia Naô Xohã (Pataxó e Pataxó Hãhãhãe) foi obrigada a abandonar suas terras . No geral, a vida de muitas pessoas mudou para sempre naquele dia, incluindo muitas crianças e idosos que sofreram lesões na pele devido à poluição ambiental resultante do desastre”, afirma a Mighty Earth.
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Além do desastre de Brumadinho, o relatório diz que “várias outras situações negativas foram atreladas à Vale”.
Outros dois exemplos relacionados com os danos causados pela Vale são em Piquiá de Baixo, uma vila de cerca de 1.500 pessoas, no Maranhão, igualmente parte do relatório da ONU . Desde a sua fundação, segundo o documento, os moradores se queixam da poluição das unidades concentradoras de minério de ferro, bem como da poluição causada pelo pó de ferro transportado pela Estrada de Ferro Carajás (EFC).
“Além disso, o município de Bom Jesus do Tocantins abriga a comunidade indígena Gavião, que habita a Terra Indígena Mãe Maria. Os Gavião afirmam que a EFC destruiu partes de seu território. Embora a Vale afirme que chegou a acordos com lideranças indígenas locais, alguns afirmam que não deram seu consentimento para a expansão da ferrovia”, acrescenta o relatório sobre a montadora em relação a violações aos povos tradicionais.
O Observatório da Mineração produziu duas matérias especiais sobre os problemas e violações causadas pela estrada de ferro Carajás: uma em 2022, sobre as comunidades impactadas no Maranhão e outra em 2023, sobre como a comunidade indígena da TI Mãe Maria acabou dividida pela Vale.
Os elos da cadeia produtiva da Hyundai foram esquadrinhados em uma investigação de seis etapas pela Mighty Earth e uma coalizão de entidades (Instituto Cordilheira, Cultural Survival, Earthworks, Environmental Defender Law Center, Empower, Fair Steel Coalition, Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul, Justice for Formosa Victims, Solutions for Our Climate, The Sunrise Project, Tsikini, e Wildsight) entre janeiro de 2018 e outubro de 2024. A pesquisa analisou 57.402 remessas por 196 empresas da cadeia de suprimentos.
Foto de destaque: Divulgação Hyundai
Especialista diz que empresas “não são dignas de boa fé” e defende criação do Marco Nacional de Direitos Humanos sobre corporações
Para Danilo Chammas, advogado, defensor de Direitos Humanos e presidente do Instituto Cordilheira, uma das entidades que participa da coalizão do relatório sobre a cadeia produtiva da montadora, a pesquisa revela que a Hyundai, a terceira maior indústria de automóveis do mundo e a única montadora que tem uma subsidiária dedicada à produção de aço, tem uma contínua dependência de práticas “devastadoras” no fornecimento de matérias-primas, como carvão e minério de ferro, usados na fabricação dos seus veículos.
Chammas explica o descompasso entre os valores das empresas e a luta de pessoas e organizações em todo o mundo para que as normas e os sistemas jurídicos estejam à altura dos problemas criados pela globalização econômica.
“Enquanto as empresas em sua maioria defendem a autorregulação ou, no máximo, um sistema de normas de cumprimento voluntário (soft law), pessoas defensoras de Direitos Humanos, ambientalistas e outros setores da sociedade têm conduzido iniciativas em vista da criação de regras vinculantes, ou seja, de cumprimento obrigatório (hard law), e que contem com mecanismos de controle autorizados a aplicar penas para o caso de descumprimento”, avalia.
Segundo o advogado, que é morador de Brumadinho e faz parte da equipe que presta assistência jurídica aos familiares das vítimas do rompimento da barragem da Vale S.A. na Mina Córrego do Feijão, a prática com este exemplo já está comprovado que as empresas têm como principais objetivos a valorização de suas ações e a maximização dos dividendos distribuídos a seus acionistas.
“E não são dignas de boa fé. As investigações sobre o rompimento da barragem de Brumadinho, por exemplo, revelaram uma relação promíscua entre a mineradora Vale S.A. e a auditora alemã TÜV SÜD, o que configura um bom exemplo para ilustrar a necessidade de um controle mais efetivo sobre o comportamento das empresas”, afirma.
Chammas defende medidas que obriguem o controle mais efetivo das empresas como a criada em 2024 pelo Conselho da União Europeia, a CSDDD, a sigla em inglês para “Diretriz de Diligência Devida em Sustentabilidade Corporativa”. E alerta que em pouco tempo, depois de mais de dez anos de luta para a criação de uma regra como essa no Conselho de Direitos Humanos da ONU, emendas ao texto já preocupam a Coalização Europeia por Justiça Corporativa.
No Brasil, destaca o especialista, já tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei 572/2022 , que pretende instituir o Marco Nacional sobre Empresas e Direitos Humanos. O texto, afirma Chammas, traz a imposição de diretrizes para a aplicação de normas nacionais e internacionais de proteção dos Direitos Humanos e a promoção de políticas públicas relacionadas ao tema.
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Siderúrgica causou impacto negativo de R$ 9,1 bilhões entre 2010 e 2023
De acordo com a investigação da cadeia produtiva da montadora, a Ternium desempenha “um papel central na cadeia de fornecimento da Hyundai”. No Brasil, a siderúrgica é dona da usina integrada de Santa Cruz que produz aço com minério de ferro e carvão de fornecedores como a Vale e a BHP Mitsubishi Alliance.
Este aço é então, segundo os elos da investigação, enviado para a Ternium no México. E entre março de 2019 e fevereiro de 2024, a investigação identificou 253 remessas de placas de aço da Ternium no Brasil para a Ternium México, no valor de US$ 33 bilhões.
Como mostrou o Observatório da Mineração em agosto de 2022, as ações da fornecedora da montadora fazem parte do que produz de impacto a cadeia minero-siderúrgica que emitiu 107,6 milhões de toneladas de CO2e em 2020 , de acordo com dados levantados pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) no SEEG/Observatório do Clima.
Em agosto de 2021, Vale e Ternium anunciaram um memorando de entendiment o para “buscar oportunidades para desenvolver soluções para a siderurgia focadas na redução das emissões de CO2”.
No anúncio, a Vale afirmava que a iniciativa deveria contribuir “para se alcançar o compromisso da mineradora de reduzir 15% das emissões líquidas de Escopo 3 até 2035”. E a Ternium de reduzir “em 20% sua intensidade de emissão de CO2 até 2030”.
Pelos efeitos imediatos no bairro, estimados pela investigação da Mighty Earth, a empresa deveria fazer ações mais efetivas ou mais rápidas para reduzir a emissão das 10 milhões de toneladas de CO2 a cada ano.
O levantamento mostra que a poluição do ar gerada pela unidade afeta “desproporcionalmente” os cerca de 250 mil moradores do “empobrecido bairro de Santa Cruz, que relatam um aumento de doenças respiratórias, cardíacas, cutâneas, cancerígenas e de saúde mental” e que a poluição pode chegar até a São Paulo.
De acordo com outro relatório do Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo (Centre for Research on Energy and Clean Air – CREA), a exposição dos poluentes da Ternium causou 1.200 mortes, incluindo 35 crianças menores de 5 anos, devido a doenças como acidente vascular cerebral, infecções respiratórias, DPOC, câncer de pulmão e diabetes.
O CREA, revela o relatório da Mighty Earth, calculou que esses impactos na saúde resultaram em um custo econômico para a sociedade de US$ 1,8 bilhão (R$ 9,1 bilhões), de 2010 a 2023, “superando os gastos anuais combinados do Rio de Janeiro em educação, cultura e esportes”.
“E poluiu rios e a Baía de Sepetiba. Ademais, desmatou manguezais, causou eventos de “chuva de prata”, em que a fuligem de grafite caiu sobre a região, e prejudicou os meios de subsistência de cerca de 8.000 pescadores artesanais, agricultores e marisqueiros”, enumera o relatório ao citar os danos ambientais da siderúrgica.
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Hyundai diz que está comprometida com uma “cadeia de suprimentos ética” e Vale afirma que atua há 40 anos de “forma sustentável” na Amazônia
A Hyundai Motor Company, da qual a Hyundai Motor Brasil é subsidiária, afirmou em nota ao Observatório da Mineração que “está comprometida com uma cadeia de suprimentos ética e sustentável que apoia os direitos humanos, a proteção ao meio ambiente e o respeito à segurança das pessoas”.
Além disso, a Hyundai Motor nega ter relação contratual direta “com algumas das empresas citadas no relatório”.
“A empresa vai expandir continuamente a atuação de seu gerenciamento da cadeia de suprimentos de matérias primas a fim de proativamente mitigar potenciais riscos aos direitos humanos e ao meio ambiente dentro da cadeia completa de valor. A Hyundai Motor segue comprometida com uma abordagem holística em relação à neutralidade de carbono, investigando e implementando diversas medidas e fortalecendo sua colaboração em toda a cadeia de suprimentos”, diz a nota.
Já a nota da Vale alega que, ao contrário do que aponta o relatório, toma diversas medidas para garantir que suas operações sejam feitas de maneira responsável e sustentável e que acredita que “a mineração sustentável deve integrar proteção ambiental, bem-estar da comunidade e desenvolvimento econômico, e exercemos um papel fundamental na descarbonização da indústria siderúrgica global, fornecendo minérios e metais de menor pegada de carbono, essenciais para a transição energética. Em suas ações, a empresa considera os aspectos ambientais e toda a legislação aplicável e gerencia seus processos empregando tecnologia disponível para o controle ambiental, prevenindo e mitigando impactos. Além disso, a atuação social da companhia está pautada em um permanente processo de gestão de riscos sobre as comunidades e pela promoção de um legado social positivo. Por meio de alianças e parcerias, estamos sempre buscando formas para articular soluções para os desafios enfrentados pelas comunidades vizinhas e pela sociedade”.
Sobre as operações em Carajás a mineradora afirma que “a Vale está presente na Amazônia há 40 anos. Quatro décadas de compromisso com a floresta e as comunidades que vivem nela. Ajudando a manter de pé e proteger cerca de 1 milhão de hectares de área florestas no mundo, sendo 800 mil só na Amazônia, o que representa uma área 5 vezes maior que a cidade de São Paulo. Na última década, investimos mais de R$ 1 bi em ações de proteção, P&D e incentivo à cultura. Deste total, R$ 910 milhões voluntários”, diz a nota.
Sobre barragens e Brumadinho, a empresa afirma que “em 2024, o Programa de Descaracterização de Estruturas a Montante atingiu quase 57%, com a eliminação de 17 estruturas. Somando a isso, a empresa vem implementando tecnologias de processamento a seco, que não requerem uso de água e, portanto, dispensam o uso de barragens. Atualmente, cerca de 70% da produção de minério de ferro da mineradora ocorre por processamento a seco” e que as ações de reparação pelo rompimento da barragem B1 “avançam consistentemente”. “O Acordo de Reparação Integral, assinado em 2021, pelo Governo de Minas Gerais, Ministérios Públicos Federal e de Minas Gerais e as Defensorias Públicas de Minas Gerais e a Vale alcança a 75% do valor total estimado de R$ 37,7 bilhões”, destaca o comunicado.
A Ternium e a Kia não retornaram até o fechamento desta edição aos pedidos de posicionamento sobre os dados e afirmações do relatório, mesmo com prazo superior a 10 dias e seguidos contatos. O espaço continua aberto para a manifestação das empresas.
Fonte
O post “Cadeia produtiva de aço da Hyundai tem padrão “alarmante” de violações de direitos humanos, abusos ambientais e desrespeito pelo clima, aponta relatório” foi publicado em 25/02/2025 e pode ser visto originalmente diretamente na fonte Observatório da Mineração